domingo, 31 de março de 2019

Relatório


Com Os Dentes Cravados Na Memória

I

na sala ficaram cacos de pratos
espalhados pelo chão. pedaços do corpo retidos
entre o corredor, após o interrogatório.
um cheiro forte de pólvora e mijo
misturados a dois ou três dias sem banho
depois de feito sexo.
só o fogo da verdade exalando odor e raiva
quando em verde, conspiravam contra nós.

em são cristóvão o gasômetro vomitava
um gás venoso nos pulmões já cancerados
nos quartéis da cavalaria.

II

me lembro.
o sentimento  era náuseas, nojo, asco,
quando as botas do carrasco
bateram nos meus ombros com os cascos.

jamais me esquecerei o nome do bandido
escondido atrás dos tanques
e
se chamavam:
                          Dragões da Independência
e a gente ali na inocência.
comendo estrumes. engolindo em seco
as feridas provocadas por esporas.
aguentando o coice, o cuspe,
e
a própria ira
                        dos animais de fardas
batendo patas sobre nós.

III

com a carne em postas sobre a mesa,
o couro cru, o coração em desespero,
o sangue fluindo pelos poros, pelos pelos.

eu faço aqui
meditações sobre o presente
re cri ando
                   meu futuro.
tendo o corpo em cada porta
e a cara em cada furo.

tentando só/erguer
as condições pra ser humano
visto que tornou-se urbano
e re-par-tiu
                     se
em mil pedaços
visto que do sobre-humano
restou cabeça, pés, e braços.

Artur Gomes
Couro Cru & Carne Viva - 1987



sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019


Poética 72


Dezembro
mais um ano finda
e ninguém sabe me dizer
o que virá ainda
se dois mil e dezoito foi bom
que alguém me prove
eu aqui medindo no compasso
os novos passos
para dois mil e dezenove

Artur Gomes

www.fulinaimicas.blogspot.com


 

A tentação sou eu

Deito para lua
só ela pode como eu quero
penetrar-me com sua luz de fogo
me deleitar com seu leite
eu quero a lua cheia
que me entre o mar das cochas
e me engravide com seu manto
e que não fique algum quebranto
o mal olhado o olho gordo
que me lave com seu líquido
e me leve até São Jorge
com o seu cavalo branco

Gigi Mocidade
www.fulinaimicas3.blogspot.com




quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

movimentos



Movimentos

Das Arcádias trago
os seios da senhora a Madona
Medusa a Monalisa
os mamilos de Vênus
as cochas de Afrodite
Zeus meu pai - acredite
o desejo desse beijo
em um tempo que não foi
no teu corpo minhas lavras
as palavras – alguma ilha
na parábola de nós dois

ouço a música nesse disco estrangeiro
e essa musa tem um que de Guanabara
no silêncio ela ri da nossa cara
a flor do mangue agora mora
onde era água e no seu leito jorra lama
por sua boca desdentada peixe podre
como uma Angra no poema a carNAvalha
o sal da terra naturalismo onde supunha
eco sistema não interessa ao mato grosso
o agro-negócio só quer saber  de criar bois
e o simbolismo da escrita é só metáfora
a concretude o modernismo vem depois

Artur Gomes
www.fulinaimicas2.blogspot.com





quarta-feira, 7 de novembro de 2018

poéticas




Poética 42

Era uma menina vestida de outubro
atravessando a rua
com um girassol no seu vestido

suas mãos beijavam o vento
como fossem lábios
de um beija-flor

meus olhos mergulhados 
na paisagem
entre os olhos da menina
e o espelho do retrovisor

foto.grafei  naquela tarde
a cor do seu vestido
e o girassol daquele dia
para me habitarem
seja lá por onde eu for





Poética 43

A menina vestida de outubro
se espantou com a minha idade
os homens velhos da usa cidade
dormem cedo com medo de poesia
nunca viram os Girassóis  de Van Gog
nunca ouviram Luís Melodia
nem sabem que Todo Dia É Dia D
e Poesia É Todo Dia

Federico Baudelaire



quinta-feira, 25 de outubro de 2018

entrevista com a psicóloga Isadora Chiminazzo Predebon


Artur Gomes - Formado o tripé: psicologia psicanálise filosofia, de que forma você acha que poderíamos utilizar conhecimentos dessas áreas em Laboratórios de Teatro?

Isadora Predebon - Se partirmos do pressuposto que a Psicologia e a Psicanálise também têm algumas de suas bases de inspiração e influência na filosofia e também na arte, seja para explicar seja como metáfora, os laboratórios de teatro podem ser contemplados no que tange às particularidades do indivíduo. Em outras palavras, quero dizer que podemos pensar no seguinte sistema: persona-personalidade. Em que sentido? 

A partir do momento em que compreendemos que a palavra personalidade também se originou da palavra ersona” nos teatros da Grécia Antiga, para representar diversos personagens e suas particularidades, isto é, a sua individualidade, sua personalidade e, possivelmente, também sua identidade. Hoje, não precisamos mais utilizar de máscaras para a identificação e diferenciação, mas o teatro, como qualquer outra atividade, é influenciado pelo tempo-espaço-evolução. 

Se hoje homens e mulheres habitam o mesmo espaço no teatro, assim como outros públicos, a interpretação deve tornar o personagem tão humano (de dar vida, mesmo) que se pareça com alguém que conhecemos. Mas e como fazer isso? Não sei como funciona uma oficina de teatro propriamente dita, contudo, penso que a observação de pessoas ou coisas seja um ponto muito interessante para explorarmos o que cada pessoa tem de único no mundo e o que tem de semelhante, o que pode ser levado para um personagem, por exemplo.

As idiossincrasias do comportamento e personalidade de cada um. Outro ponto importante é ler - livros, jornais, revistas, entre outros - se inspirar e agir como se imagina que o outro agiria. Ver filmes e produções audiovisuais. Compreender a história, os termos, os conceitos. Inspirar-se e construir, diferente de reproduzir algo pronto, é imprimir quem eu sou no personagem, torná-lo único e insubstituível.

Artur Gomes - A poesia levou você a ser psicóloga ou a psicologia te fez aproximar da poesia ?

Isadora Predebon - As duas entraram em momentos diferentes em minha vida. Lembro que quando criança me encantava mais com os livros de poesia do que outros. Acho que a paixão do poeta em sua poesia sempre me chamou mais atenção, assim como as brincadeiras com as palavras. Quando estava no quinto ano do ensino fundamental precisei escolher um livro para fazer uma análise para a aula de Língua Portuguesa e escolhi um livro do Mário Quintana, para mim fazia mais sentido, porque poesia para mim tem a ver com sentimento e emoção. Não que outras formas de escritas não tenham isso, obvio que tem, mas na poesia sinto que a entrega é diferente...

Quando criança também me encantava com coisas que hoje compreendo dentro do campo da psicologia, mas na época isso não tinha nome ainda para mim. As minhas preferências, identificações foram me levando pouco a pouco até a psicologia.

Fui entender o que fazia uma psicóloga com uns 10 anos de idade, antes disso, falava que, por exemplo, queria ser médica que ajudasse pessoas também com os sentimentos delas  a se sentirem melhor não só fisicamente. Eu me referia a isso por, em primeiro lugar, não querer lidar com agulha e sangue (meu pavor), mas ainda entender que as pessoas podem ser tratadas de diferentes formas e, em segundo lugar, ter sido apresentada ainda criança à medicina homeopática e ter me identificado com o trabalho da médica (que é minha médica até hoje e a tenho com muito carinho). 

Enfim, aos poucos fui percebendo que várias identificações foram me levando a conhecer a psicologia e a me encantar por ela a ponto de escolher como área de estudo e profissão. Por isso, acredito que a poesia e a psicologia entraram separadamente, mas como muitos teóricos da área falam: a arte antecede a psicologia, sem ela não explicaríamos algumas coisas, pois ela nos faz refletir. e criar. Por isso, precisamos de arte, de contextualização histórica, de poesia, de cinema e entre outros.

Artur Gomes -  Por quê e quando começou a se interessar por psicologia e definiu que o seu futuro profissional seria esse?

Isadora Predebon - De certa forma, a Psicologia me reaproximou da arte (no sentido geral). Por um tempo acreditei que não tinha habilidades criativas para isso, talvez por me comparar com outras pessoas (o que não é correto, mas fui entender isso com 20 anos). Com o tempo entendi que não importa onde estamos, a cultura e arte vão estar presentes tanto quanto o ar que respiramos e não temos como fugir dela e o melhor é sentar, pegar uma pipoca e assistir um filme e se deixar tocar por ele; ler um livro e refletir sobre o que se leu; parar um tempo e se deixar apaixonar pela paixão do poeta; se deixar apaixonar pela pintura do artista-plástico ou pela obra do escultor... Não podemos controlar o que sentimos, mas podemos refletir sobre como somos tocados pela arte, seja ela qual for. E ainda, enquanto psicóloga, analisar o que aquilo está sendo dito e apresentado (mas aí, o negócio é até mais amplo!).

sábado, 29 de setembro de 2018

poéticas



Lençol de Folhas

Estendi nosso lençol de folhas secas
à beira mar
te espero na lua cheia
quando você chegar
vamos fazer um carnaval
traga a sua fantasia
não se preocupe
onde vamos sonhar
nossa cama é na areia

Artur Gomes Gumes



Poética

pedrinha na areia
é partícula do desejo
se solta dos corais
e vem nas ondas
morrer na praia
implorando por um beijo

Artur Gomes Gumes



Viagem

Barrinha
é logo depois de Manguinhos
antes de Buena à Vista
onde a barra é mais pesada
navego em teu corpo tenso
nem sei onde começa
o avesso dessa estrada
depois que te beijo nua
teus olhos se perdem na lua
a boca pede para ser beijada

Artur Gomes 



quarta-feira, 26 de setembro de 2018

antropomágica




Antropomágica


a primeira vez
foi um primeiro beijo então roubado
ali já ficou sacramentado na tropicália
o que iríamos desvendar
por entre cinzas nos currais
nas aldeias, ocas, nas taperas
por quantas Eras iríamos se encontrar

agora com  pá/lavro outras amoras
plantei tuas sementes
no quintal da estação três cinco três
os frutos colherei junto ao teu nome
da tua carne comerei mais uma vez

Artur Gomes Gumes





Algo sobre céu

Pousam nas xícaras da noite passada
borboletas da Índia, tons de corais.
Sobre a borra de café, aroma salino
e profundo do Índico.

Asas transparentes, projetam azuis
no banco silencioso e frio da parede
como se fosse primavera.

Telas de anjos e outras divindades
(dessas que não lembramos de onde vem)
como se vivas, vertiam lágrimas
intactas pétalas de flores
bordando o tapete da sala
da mais pura igualdade e paz.

Nas borras do café da noite passada
abriu-se cristalino, o destino
nas asas das borboletas da Índia
no cheiro de incenso de mirra.

E todo ser fez-se um pedaço do Divino
pausa no tempo,  no acorde menino
por instantes, o brinde do vinho
e tudo em volta fez-se céu
e tudo em volta, céu
profundamente céu.

Tonho França
Do livro Quarto de Azulejos



Editora Penalux - 2014

Relatório

Com Os Dentes Cravados Na Memória I na sala ficaram cacos de pratos espalhados pelo chão. pedaços do corpo retidos entre o ...