sábado, 29 de setembro de 2018

poéticas



Lençol de Folhas

Estendi nosso lençol de folhas secas
à beira mar
te espero na lua cheia
quando você chegar
vamos fazer um carnaval
traga a sua fantasia
não se preocupe
onde vamos sonhar
nossa cama é na areia

Artur Gomes Gumes



Poética

pedrinha na areia
é partícula do desejo
se solta dos corais
e vem nas ondas
morrer na praia
implorando por um beijo

Artur Gomes Gumes



Viagem

Barrinha
é logo depois de Manguinhos
antes de Buena à Vista
onde a barra é mais pesada
navego em teu corpo tenso
nem sei onde começa
o avesso dessa estrada
depois que te beijo nua
teus olhos se perdem na lua
a boca pede para ser beijada

Artur Gomes 



quarta-feira, 26 de setembro de 2018

antropomágica




Antropomágica


a primeira vez
foi um primeiro beijo então roubado
ali já ficou sacramentado na tropicália
o que iríamos desvendar
por entre cinzas nos currais
nas aldeias, ocas, nas taperas
por quantas Eras iríamos se encontrar

agora com  pá/lavro outras amoras
plantei tuas sementes
no quintal da estação três cinco três
os frutos colherei junto ao teu nome
da tua carne comerei mais uma vez

Artur Gomes Gumes





Algo sobre céu

Pousam nas xícaras da noite passada
borboletas da Índia, tons de corais.
Sobre a borra de café, aroma salino
e profundo do Índico.

Asas transparentes, projetam azuis
no banco silencioso e frio da parede
como se fosse primavera.

Telas de anjos e outras divindades
(dessas que não lembramos de onde vem)
como se vivas, vertiam lágrimas
intactas pétalas de flores
bordando o tapete da sala
da mais pura igualdade e paz.

Nas borras do café da noite passada
abriu-se cristalino, o destino
nas asas das borboletas da Índia
no cheiro de incenso de mirra.

E todo ser fez-se um pedaço do Divino
pausa no tempo,  no acorde menino
por instantes, o brinde do vinho
e tudo em volta fez-se céu
e tudo em volta, céu
profundamente céu.

Tonho França
Do livro Quarto de Azulejos



Editora Penalux - 2014

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

lua cheia



lua cheia

tatuei com a língua a data
no teu corpo litoral – meu corpo em chamas
o mar lambeu o sal na concha
que plantei no teu umbigo
um palmo abaixo espuma  ondas
por entre o vão de nossas coxas
Netuno aceso como um beijo de setembro
linguagem viva no temporal por onde for
eu sonho a lua quando  cheia
que  me transmuta pra compor

Artur Gomes

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

tempo poético



Tempo  
Para Isadora Chiminazzo Predebon

O tempo é o senhor
dos meus ponteiros de músculos
relógio oculto no incons/ciente
o tempo
nos olhos daquela viagem
a paisagem
Caminho de Pedras
 o cenário
Vale dos Vinhedos
o tempo
guardo em segredo
como uma Jura Secreta
na íris dos olhos dela
na face oculta da noite
na retidão clara do dia
como um concha na areia
o tempo mar de espumas
sargaço algas noturnas
a carne do corpo também
o vinho do tempo na boca
e a língua dizendo amém

Artur Gomes Gumes





poeta

por um poema
que desconcerte
entorte
desconcerte
arrombe a porta
dos céus
da tua boca
arranhe os dentes
da loba
arrebanhe os cordeiros
no pasto
e lhes ensine
a subverter
as ordens do pastor
assumo o risco
não sou o demo
nem corisco
eu sou cantor

Artur Gomes Gumes



segunda-feira, 3 de setembro de 2018

sagaranagem turca



Sagaranagem  turca

estella ainda passeia
direto na veia
naquele encontro marcado
o amor não consumado

me beijou no morro da urca
despindo seus montes claros
umbigo colado  no umbigo
marcou comigo no catete
com aquela fome do cacete
pra comermos nalgum lugar

estella fugiu pra tijuca
deixando-me naquela sinuca
em nossa cama de sonhar

Federico Baudelaire





linguagem

abraço este poema
como se beijasse meu poeta
com suas linhas tortas
em meu corpo tatuado
teu nome e sobrenome
como um  gozo ardente
tua língua ativa
me lambendo quente
e todo líquido escorrendo
por entre o vão dos dentes

Gigi Mocidade

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

mitológicas


Jura Secreta 106

Clarice deseja o indesejável
na escuridão o que não tem nome
o abominável dos desejos
no sagrado o que não se dizia
descrevias as galáxias de Haroldo
descendo ao concreto de Augusto
como se fosse simbolismo pós-moderno
em Dante queria sempre descer aos infernos
no silêncio seu barulho nas auroras
penetrando meus abismos
em labirintos pra mastigar meus pesadelos
quando a noite se vestia de mistérios
com 7 velas que acendia para Oxossi
entre as matas do seu corpo em desconcerto


Mitológica

O sorriso de Monalisa
na boca de Clarice eletri-fica
Zeus em mim por todas Heras
deusas angelicais
beijam meus lábios canibais
cantando salmos
em hóstias consagradas
no altar – secretas juras
e os bíblicos enciumados
excluíram meus poemas
das sagradas escrituras


Enigma número 2

arde em minhas mãos teus poros
minhas unhas ainda queimam
dentro o sal das tuas ágoras
outubro era quase um mar de folhas
no coliseu dos imigrantes italianos
e nossos corpos não tinham panos
nos planos só o amor das águas
o vinho temperava nossas línguas
ao mastigar a santa ceia
Clarice trigo do pão em minha boca
fermento de Zeus em nossas carnes
no vale Olimpo onde gozamos
com fachos de fogo em nossas veias

Artur Gomes





sexta-feira, 17 de agosto de 2018

jura secreta 103




Jura Secreta 103

Clarice em tudo que ainda não disse
em tudo o que ainda disser
nas páginas de um livro branco
como fosse um chocolate
quem sabe vento de maio
as flores do mal desfolhasse
nas pétalas do bem-me-quer
num carnaval na quarta-feira
Clarice a porta/bandeira
do mestre/sala  Federico Baudelaire

Artur Gomes
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